terça-feira, 22 de abril de 2008

Declaração de bens poéticos

Esta crônica foi inspirada no nosso poeta Ernesto Wayne e publicada alguns dias antes de sua súbita morte. Por oportuna, rendo-lhe nova homenagem.
A minha vivência com poesia é extremamente pobre, por um lado motivado pelo fato de que ela pertence a um tipo especial de seres sensíveis, sobremodo. E por outro, pelo fato de ter tido escassas motivações desde a minha infância ou se as tive não soube aproveitá-las. O pouco que sei foi aprendido.
Mesmo assim declaro que desde pequeno lembro das primeiras rimas, que não passam de "batatinha quando nasce...." e "Terezinha de Jesus.....", sem esquecer de "Oh Víbora da Cruz...."cantiga de roda que tinha rima pobre mas que ensinava a cadencia, aprendida junto com a turma lá da minha quadra. De minha mãe, lembro-me agora quando versejava: "E os gerânios debruçados na janela indagarão,--Que é feito dela?" ou "Quando lá novamente então tu fores, podes colher do chão todas as flores, pois são versos de amor que ainda te dou!"
E ainda guri, ouvia as poesias que nasciam da terra e que eram de tanto agrado do meu pai que, ora lia, ora dizia poemas de Vargas Neto em sua "Tropilha Crioula e Gado Xucro" como:
"Tim,lim,lim,tim,lim,lim,égua madrinha"
ou
"O que é que tu queres Quero-Quero?
Aborrecido quando te ouço fico
e uma grande saudade me esporeia,
pois dizem que gemem no teu bico,
os gaúchos que morrem na peleia!"

"És o ronda do pampa com teu bando,
Etc,etc.etc....."

Mais tarde, esta linha crioula seria enriquecida pelos versos do livro de Jayme Caetano Braun, "De Fogão em Fogão", que continha várias pérolas, como "Galo de Rinha", "Medicina Campeira", entre outras e "Tio Anastácio":

"Tio Anastácio pra cá,
Tio Anastácio pra lá,
Mandado que nem piá
por aquela redondeza...."

"Quem visse Tio Anastácio
golpeando um trago de canha
retovado num balcão.
Tinha-se logo a impressão
que aquele tordilho sério
era o Rio Grande gaudério
fugindo da evolução!"

"Pois até parece mentira
negro velho de valor!
Morreste no corredor
como matungo sem dono!
Não tendo nesse abandono
ao menos um companheiro
que te estendesse o baixeiro
para o derradeiro sono!"

Certa vez, trabalhando em Porto Alegre, fui atender um paciente que desconhecia quem fosse, na Rua Iguaçú, em Petrópolis. Qual não foi minha surpresa quando deparei-me com Jayme Caetano Braun como sendo o dito enfermo. Ao final da consulta, me identifiquei como seu admirador, declamei-lhe o diagnóstico e uma prescrição pra resfriado e ele me dedicou um seu lançamento chamado "Potreiro de Guaxos". E ainda lhe fiz saber que muito sucesso fazia com aquela do "Barranquear é verbo xucro...." e que assim terminava:

"Pois nesta comilança campeira,
comí galinha, pato, marreco e perú,
e só não comí marimbondo,
porque tem ferrão no cú!"

E por fim, dessas campeiras, muito declamei nas minhas farras do tempo de faculdade, de Aparício Silva Rillo, já desaparecido: "No Bolicho"

"Traga de vez a garrafa,
bolicheiro me despacha,
Que hoje no mais se emborracha
quem nunca se emborrachou!
Quero beber no gargalo
pra esquecer este pialo
que o tal do amor me atirou!"

E mais essa que considero como escrita por algum gaúcho velho, teatino e libertário:

"Eu sou um bagual cansado,
que esterco e cheiro na bosta.
Bota a cola nas costas e saio pererê, pererê, pererê!!

Um pouco antes disso no Ginásio tive a felicidade de ser aluno de mestres que me ensinaram a manusear o "Florilégio Nacional", onde lí e ainda lembro de "Y-Juca-Pirama":

"Não chores meu filho,
não chores que a vida
é luta renhida, viver é lutar.
Se o duro combate
aos fracos abate,
aos fortes, aos bravos,
só pode exaltar!"

Sem esquecer da mesma origem,"Tertuliano","O Caçador de Esmeraldas" e "Navio Negreiro". Desta mesma época, certa vez, movido por alguma paixão prevaricante, como são as paixões envolventes do início da adolescência, meu rendimento escolar ameaçava com reprovação no fim do ano, que já vinha próximo. Meu sábio pai, então, tomou a si os argumentos e ensinamentos contidos na poesia de Rudyard Kipling, "If", traduzida de forma bela e fiel para o português, nada mais que por Guilherme de Almeida, com o nome de "Se":

"Se és capaz de manter a calma
quando todo mundo ao redor de ti
já a perdeu e te culpa.
De crer em tí
quando estão todos duvidando
e para estes no entanto achares um desculpa!

Se és capaz de esperar
sem te desesperares ......."

Não sei se foi por causa dela, mas o ano foi salvo e de certo restou ao meu pai o mérito de me apresentar uma peça literária famosa em todo o mundo. Da adolescência lembro ainda, também, e não poderia deixar de fazê-lo, de J.G. de Araújo Jorge, por cujos versos algumas namoradinhas se renderam aos meus sussurros. E mais tarde veio Vinícius de Morais com "Para Viver Um Grande Amor":

"Para viver um grande amor necessário é muita concentração e muito siso,
muita seriedade e pouco riso,
para viver um grande amor."

Além de ter tido contato com coisas esparsas de Garcia Lorca, Pablo Neruda e Fernando Pessoa.
Mas de que será feita essa coisa tão marcante qual seja a poesia, que nos atrai e entra em nossos arquivos neuronais, permanecendo ali como a moldura de muitos quadros ocorridos em nossas vidas?
A escala musical, aos olhos pobres de nosso desconhecimento parece impossível que possa verter os arranjos profusos em harmonia e beleza que dela escorrem, fruto da combinação de sete monótonas sílabas aparentemente estéreis. Pois com um si bemol aqui, um sustenido lá, pautados de forma como se fossem hieróglifos sonógenos ou como DNAs suspensos em citoplasma criativo e proliferante, acabam na verdadeiramente infinita criação de partituras musicais intermináveis. Coisa de gênio!
Gênio também é, pois, o poeta que descreve as coisas que nós nem sempre percebemos e que nos passam ao largo, descreve com mais dor e sofrimento ou com mais conforto e alegria do que nossa vã percepção, mas principalmente com uma coisa que a eles é matéria prima obrigatória, a sensibilidade, ao nosso revés, que o mais das vezes não consegue bem identificar. Destinados a conviver com as emoções deles próprios, acabam por mexer também com as nossas, pois que sentem o que não percebemos ou sentimos, traduzem nossas alegrias e dissabores, fazendo-nos ver coisas que somente seus olhos vêem e que só seus corações sentem. Os poetas são os verdadeiros viventes ou padecentes, de forma total e diferenciada, das emoções que a vida nos reserva e que de lambuja, alguns ao transmitirem aos alfarrábios seus momentos negros ou áureos, nos emprestam parte de suas vidas e nos fazem ver melhor as nossas. Grandes observadores, são habitualmente introspectos, pois não perdem tempo com o inútil do cotidiano, sua missão é traduzir a vida desde e através da sua essência, de todos os ângulos e de todas as formas.
Aqui em Bagé existem vários, mas escolho um porque usa óculos de fundo de garrafa (desculpem, não tinha outro critério).Nosso Ernesto Wayne, um homem cheio de vivências e se assim não fosse também seria belo, pois despejava, para alegria da sensibilidade citadina, todas as notas poéticas sob o olho da sua grande e elevada percepção, falava coisas do arco da velha relacionado a um mundo onde a emoção foi farta(aqueles que conheceram a UZB – Universidade da Zona da Baixada - e equivalentes, que o digam). E, enquanto esteve bem vivo, falava com luz e bondade coisas também do arco da moça(ou das moças?). Do que gostávamos muito, não foi poeta?

Pois, certa vez,
no exato dia deste maltraço,
ao passo, dei de cara com o dito;
à sombra, na praça, em meio a Arte.
--Preciso de ti, disse, um neurologista.
Meio aflito!
“Deus me livre”, eu me disse,
mexer em semelhante patrimônio?!
---Quem sabe consultar um outro, poeta,
um que lhe melhor lhe entenda,
um mais idôneo?
E que por certo lhe diria:
--Não dê bola se é a memória que atrapalha,
enquanto se percebe é sinal que ainda presta, esfria!
Pior é a mortalha, que esta sim, não falha!

( Passados poucos dias, Zeus o levou!)