domingo, 11 de maio de 2008

Por trás da vidraça

Nem por trás da vidraça
Assistem, por trás da vidraça
na ante-sala da execução,
o carcereiro, o promotor,
um enfermeiro, mais o doutor
e o executor;
vêem, inclementes, o assassino
que fez o que fez, por desatino,
agora na sala da execução
esperando a sua hora,
sentado e amarrado,
até desistiu de esperar compaixão.

De cá da vidraça, bem sabe
o coitado, pecou, fez errado
e até acha justa a decisão;
apenas queria que junto daqueles
que esperam sua morte, naquele momento
com o ar diminuindo, esperando a fumaça
pudesse encontrar em seu resto de vida
um último alento por entre os algozes,
ver em sua hora” h”, uma feição conhecida;

Doía, no entanto não aparecia
ao menos um derradeiro
e fiel companheiro para lhe lamentar,
nenhum rosto amigo para,
por trás da vidraça, um sorriso enviar.

Angústia, tristeza e dorida certeza,
- a cabeça confusa - a vida se ia,
mas em meio à frieza até parecia
naquela hora fria, sem jeito ou magia,
ao estremecer do seu último dia
queria sentir um último sopro,
um ser conhecido, um ente querido
que perto da morte, quê feliz sensação
e, por incrível, até boa sorte;
que falta fazia e como doía, mais que a fumaça
que vinha chegando de cá da vidraça.

Quando de repente e em meio a tal gente,
eis que aparece quem lhe faltava
para se despedir;
o rosto desejado do irmão apegado,
o qual, entendendo a ânsia que vinha
de trás da vidraça, mandou-lhe de adeus
o gesto esperado.

Foi o suficiente para transformar
e transfigurar o condenado;
guardara esperança,
o pobre olhava o rosto almejado,
sentindo brotar de dentro para fora
um sopro feliz de bem-aventurança,
de cá da vidraça esperando a fumaça.

Sem poder falar ou outro expressar
mostrou, então, com o brilho do olhar
a sua gratidão por ter sido atendido;
e veio, então, o gás e a fumaça,
e, sufocado, logo desfaleceu;
no entanto, levou consigo na última hora
o rosto do amigo que tanto quis
e morreu sem demora, mas morreu feliz.

Você que julga sua sina pior do que isso
olhando o cinza porvir na fosca vidraça,
sempre debruçada na mesma sacada da vida,
assistindo somente o seu tempo passar,
será que nada lhe ensina a tragédia vivida?
Às vezes parece e dá a triste impressão
que a dor de estar vivo e de quem está inteiro
e muito maior que a dos despedaçados;
suas vidas são erros de avaliação.

Pensando em si próprios sem considerar
o infortúnio de fato, sem tomar providência,
esperando piedade, achando que a dor
do seu imaginário é sempre o contrário da felicidade;
e o pior, sem aproveitar o lado bom da verdade.

Reparem este caso que acabam de ler,
quando um pobre coitado, na hora da morte
foi capaz ter norte e almejar um momento feliz;
e mais, o que você me diz desse seu desperdício,
quando você olha a vida por um orifício?

O destino da vida quando ela é cheia,
não é escoar pelo ralo; e mesmo que doa,
não se pode achar que ela é um suplício.
Pensando em ajudar é o motivo que falo:
“Levanta cabeça, que nada é perdido ou acabado,
que nunca se encerre a dura questão ou se dê o fato
por encerrado, cruzando o talher e batendo o tablado”.