Nosso lar era uma casa com destinação diferente, no passado. Era uma estrutura de material inerte, destinada ao trabalho. Durante a semana, repleta de pessoas desconhecidas entre si que cruzavam nos corredores, tendo em comum os profissionais aos quais eram encaminhadas. Bem como, em comum, a angústia e a incerteza da doença. Essa casa, sem dúvida, cumpria uma destinação elevada e nobre, destinava-se à cura. E assim foi durante dez anos. Mas, não era um lar!
Aos fins de semana, como era vazia esta casa! Morei nela um tempo; cruzei-me com fantasmas enfermos, com a frigidez do vazio, com resquícios da dor e da febre. Tudo muito amplo, longe e silencioso. Sua única harmonia eram as palavras cruzadas que por longas horas eu as alinhava, buscando um sentido para elas e para mim próprio, então.
Aos poucos, sem sentimento de desenlace, os colegas foram saindo, um a um, quando, de repente o vazio e o silencio se fez mais constante, prolongado e insensato. E eu, dentro dela, era um fantasma materializado e sem destino, em companhia do cachorro, Ben-Hur. Meu leito, meu radinho, um fogão enorme quase desativado e uma pequena geladeira.
Mas, aos poucos foram ocorrendo as transformações. Como que para exorcizá-la e por vontade de minha estrela-guia, suas paredes foram pintadas, o chão ganhou novo brilho e tudo ganhou uma demão de limpeza pura. Era a entusiasmada preparação inicial para transformá-la em nosso lar: novos sons, luzes, cheiros, cores, conforto, novos e antigos móveis, um novo arranjo entre eles. Salas, cozinha, quarto, tudo arranjado de maneira a formar a estrutura para um lar.
E para dentro dela, há um ano e meio, entrou meu amor, Leslie!
Desde então, os sons são os sons de seu chaveiro na porta, de seus tacos ao chegar; ou do seu assovio me buscando. Ou os sons de suas músicas prediletas a misturarem-se, ocasionalmente, ao som de meus “bolachões”; das janelas que ela abre, das grades que faz correr e dos seus dedos no teclado da comunicação. E os sons dos seus sussurros de amor...... Ou, então, são os sons de seu chuveiro, da máquina de lavar roupas, que lava nossos lençóis manchados na noite; o som das panelas, pratos e copos, tudo com uma nova e inusitada vitalidade. E tudo se mistura, no inverno, ao som da madeira queimada na lareira, onde também adormecemos, num crepitar que imita o de nossos corações. Mas, tem um som que só à noite aparece, na intimidade do quarto, na moldura da cama; o som que brota no ápice do prazer do amor!
Na sala, as visitas que atrai com freqüência, sentam-se em sofás escolhidos por ela para o nosso lar; mas, que também nos acolhem para o namoro. Vêem-se quadros de muitas flores, vê-se na parede nossa perpetuação em aquarela que a tudo espreita e comemora, silente e com ar de aprovação; e muitos espelhos que refletem nossa felicidade. Muitas plantas, todas com histórias de amor a contar, que crescem viçosas com o adubo do toque de suas mãos.
Na cozinha, o velho fogão, quase inútil, que passou anos aquecendo tão somente a água do cafezinho, oferece-se diariamente e com disposição ímpar ao seu trabalho regular. E com freqüência oferece toda sua potência aos sabores que são servidos na sala aos que a nós são atraídos, de forma a agregar, pela minha hábil quituteira, que faz tudo com fartura e amor. Muita convergência já se fez ao redor da mesa principal, como soe ser em um lar que emana amor; e como assim é entendido. Sem deixar de citar, que essa mesma cozinha é o palco onde são trabalhadas pequenas maravilhas da criação, com sabores diversos e qualidade ímpar, as quais são distribuídas pela cidade toda e que são reconhecidas como as “ trufas da Leslie”.
São cheiros de doces, da boa culinária e de limpeza. Cheiro das flores que ela rega com mãos de criação. E tem o cheiro de seu corpo que enche a casa com alquimias misteriosas que lhe alisam a pele após o banho; pele que já é de pêssego ao tato, de marfim no torneado e de nácar ao olhar. Oh! Deus e os protetores, muito obrigado!
Tem também as luzes e cores que entram casa adentro quando ela abre as amplas janelas, que tanto imaginava um dia ter para que a brisa e a vida matinal entrasse, entrando junto o sol e os sons do nosso amanhecer, dia-a-dia.
Quando é preciso, tem muita luz artificial, para que nos vejamos com os olhos do encantamento e sem perder detalhes; mas tem também muita penumbra, que o mais das vezes é só para variar.
E, por fim, tem a luz do seu olhar, cor de caramelo, por onde um dia enxerguei as virtudes de sua alma.
E quando tudo se apaga, ainda assim se enxerga no escuro uma luz branca e cintilante; é dela, da minha inseparável estrela-guia, a iluminar-nos o sono sempre bom e aconchegante.
Invariavelmente, dormimos e acordamos abraçados um ao outro, sem pendências para trás que nos aflijam.
Pois, a casa que parecia vazia, quando cheia de desconhecidos, agora é um lar cheio de apenas duas pessoas. Felizes!
É assim o nosso lar!